E se me cancelarem?

Meu último post nesse blog cheio de teia de aranha foi há mais de um ano atrás. Só que ontem eu estava dando uma olhada nas minhas finanças (ou a falta de finanças) e vi que eu tinha pagado pra ter acesso a ferramentas exclusivas aqui no WordPress. Na hora comecei a me culpar. “Quem paga pra produzir conteúdo em um blog e não produz???”. Mas parei por aí porque quem nunca pagou uma academia e só foi uma vez por mês que atire a primeira pedra!

Bom, passada minha mini revolta comigo mesma, fui tentar entender o porquê desapareci aqui e no Youtube. Sim, eu tenho um canal no Youtube tão abandonado quanto esse blog. E eu cheguei a conclusão que tenho medo de expor minhas opiniões e ser julgada, ou melhor, cancelada. Esse é o verbo do momento. Cancelar. Por que? Qual o objetivo de tanto cancelamento?

Para ilustrar um pouco a discussão, vamos falar de dois fatos. O primeiro aconteceu com o Primeiro Ministro do Canadá, Justin Trudeau. Em 2001, quando ele ensinava em uma escola privada, ele pintou seu rosto de preto como parte de uma fantasia em um evento com a temática “Noite das Arábias”. Leia mais sobre isso aqui. A polêmica veio à tona bem antes da eleição em que ele tentava se reeleger. Bom, o cancelamento não foi tão forte, ele se reelegeu. Mas sua imagem ficou manchada pelo incidente e seus opositores usaram do mesmo para tentar prejudicá-lo. Em uma das minhas aulas no college chegamos a debater sobre o assunto. Alguns estudantes não acharam a polêmica tão polêmica assim. Outros estavam inconformados. Escutei alguns canadenses falando com todas as letras “Essas fotos provam que ele é RACISTA“. Opa, pera aí! Eu entendo que a cor de ninguém, especialmente de minorias, deveria ser fantasia. Eu sou uma mulher negra de pele clara, e ver alguém se vestindo de “Nega Maluca” me ofendi sim. Mas o ponto é, alguém fazer isso em 2001 não significa que a pessoa faria de novo em 2020. 

Nós somos produtos do meio em que vivemos e do modo que fomos criados. Ninguém nasce completamente “desconstruído” ou “fada sensata”. O objetivo é sempre caminhar pra chegar lá. Quando era mais nova falei e pensei muita besteira. Via outras mulheres como competição, via a magreza como a única possibilidade de corpo bonito e saudável, dentre outras coisas que me levariam ao cancelamento hoje em dia. Mas a gente evolui, ou pelo menos deveria.

Então vamos ao segundo fato. Recentemente Joaquin Phoenix ganhou o Oscar de Melhor Ator por sua interpretação em Coringa. Em meio a um discurso super politizado ele falou um pouco do ato de cancelar as pessoas: “Acho que estamos no nosso melhor momento quando nos apoiamos, não quando nos cancelamos por causa de nossos erros passados, mas sim quando nos ajudamos a crescer, quando nos educamos uns aos outros, quando nos orientamos para a redenção… isso é o melhor da humanidade.” Obrigada, Joaquin!

Quero deixar claro que erros baseados em racismo, misoginia e outras formas de discriminação não podem ser ignorados em 2020. Mas tentar humilhar e ridicularizar alguém por um erro cometido há mais de dez anos atrás é infantil e hipócrita. Mas sim, a cultura do cancelamento me assusta, me inibe e me faz me afastar de plataformas em que posso expressar minhas ideias. Tirei as teias de aranha desse blog? Tirei, mas pode ser que elas voltem a aparecer por aqui.

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